OBarRouco é um bar público onde o álcool e a poesia se sentam de mãos dadas e cantam em versos barrocos, às vezes góticos, frequentemente sem sentido.

O BarRouco - The Raucus Bar - is a pub because it's a public place where liquor and poetry sit hand in hand and sing baroque, sometimes gothic, often meaningless verse.

Terça-feira, 6 de Abril de 2010

Zappai



Os ocidentais não se cansam de tentar classificar rigorosamente os micro-poemas japoneses! A Haiku Society of America, em particular, tem até uma página de definições. Aqui encontram-se os termos haiku, hokku, senryu, haikai, renku e haibun. É interessante ler a anotação a haikai: "(...) note-se o uso do similarmente pronunciado jaicai [sic] em Português (...)"!?.

Outra nota que me despertou a atenção foi a que se segue a senryu:
"Muitos chamados 'haiku' em Inglês são, na verdade senryu. Outros, como 'Spam-ku' e 'headline haiku' parecem adições recentes a uma antiga categoria japonesa, o zappai, divertimentos miscelâneos em versos de pé quebrado (habitualmente escritos em 5-7-5) com pouco ou nenhum valor literário."

E assim se despreza um género cujas origens remontam, pelo menos, ao séc. XIV e que continua bem vivo hoje.

Esta atitude formal da HSA indignou várias pessoas, entre elas os poetas Richard Gilbert e Shinjuku Rollingstone que publicaram um artigo brilhante, erudito e... certo! no jornal Simply Haiku 3, 1 (Spring 2005).

Mas é possível que o mal feito pela HSA em 2004 seja difícil de desfazer. Uma busca por #zappai no Twitter só mostra tweets em Japonês... excepto um deste vosso amigo.

É uma brincadeira - ou talvez não - sobre o famoso koan Mu:

when asked _ do you have
the nature of a buddha
the cow answers mu

se lhe perguntas
sobre a sua buditude
a vaca diz mu

Sábado, 3 de Abril de 2010

O meu primeiro livro...




Não estive poeticamente parado todos estes meses!

Cada vez mais, sinto no haiku a minha forma de expressão.

Cada haiku que sai deste teclado, ou do telemóvel, ou do caderninho vermelho, ensina-me mais sobre mim e o mundo. que resmas de livros, aulas e sermões.

Coligi alguns (144) haiku, em inglês, do ano passado, num livro electrónico que publiquei na Smashwords.

Podem ler um grande excerto aqui e descarregá-lo em todos os formatos habituais.

Espero que gostem... O próximo passo vai ser alguma coisa em português

Olá, de novo

Depois deste tempo todo estou de volta, talvez só por um momento ou para sempre. Ainda não consigo voltar aos sonetos, nem sei se fará sentido... logo se vê...

Entretanto, continuo os semáforos de há sete meses atrás com um poema belíssimo de um amigo, o Poeta Samuel Peralta, @semaphore no Twitter.

Ode to Dawn


Gold anklebone cups,
brazen straps interlacing
from the edge of her calves
down to her heels – just now
gold-sandaled dawn flings
back night’s changing-room
curtain, sweeps out to
take a mirrored self-
appraisal, takes a
half-turn in, and
vogues.

Ensconced in such finery, such
aggrandizement, how fashionable
the doorkeeper’s feet are; seven
armlengths long, and seven
fathoms deep, the
bienséance
lingers.

Clutching close her diaphanous
handbag of sky, merino-wool
scarf of clouds, she hesitates –
but all is to be dared, because
even a person of poverty, a
plebeian, could not resist
the entreaty of
this patrician
season.

If not, winter will come like a spartan,
seasonal critic, sweep away
exuberance, like a flame.

Thus the alchemy of accessorizing
her morning dress, the one with
wisteria screened above her waist,
the one with violets in her lap, a
floral boisterousness, yet no more
than the bird with piercing voice
that calls chirping from the rosewood,
that sweetbitter unmanageable
creature who steals in when
our hearts are threadbare,
and unexpectant.

Sudden dawn, you burn me
with last season’s fading color,
this vanity’s gaudy fair;
but I to you, of a white goat-
skin shoulder-slung
silver-buckled
carryall,
sing.

Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Amarelo intermitente


http://betweenyellowandblue.wordpress.com/2009/01/
x
parece que o tempo está a acabar
ou talvez nunca tenha começado
por princípio o percurso inacabado
é para seguir rodar continuar

pelo sol pela sombra ou ao luar
sem ver nada no espelho embaciado
nem há no pára-brisas fito ou fado
nenhum semáforo neste lugar

que está sempre amarelo intermitente
desnecessário porque eu sou prudente
meço o tempo que falta para o futuro

permite-me o cálculo da distância
e esta inofensiva arrogância _
que de olhos vendados sou mais seguro


Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

Narcisos

Como já devem ter notado, continuo em férias…

A excepção têm sido os haiku, publicados mais ou menos diariamente no twitter, que podem seguir aqui ao lado.

Não é que compor um haiku envolva menos mão-de-obra que compor um soneto – nada disso!

Mas, dada a minha idade avançada, é-me mais fácil memorizar e trabalhar três versos na cabeça que catorze. E assim posso fazê-lo em qualquer lado, sem computador nem papel.

Penso que não é tradicional, mas tenho feito séries de haiku sobre o mesmo tema. Já aqui mostrei uma sobre Ipomoea – as morning glories – e aqui vai outra sobre narcisos, recomposta em forma de soneto.

Não somos todos um pouco narcisos, mesmo em molhos de dois?
x
x
três narcisos _ um
de pé junto ao lago
e um
seu próprio reflexo

os quatro narcisos _
ambos
derivam no lago
longe dos reflexos

ainda um narciso
só junto à margem do lago
murchando ausente

junto ao lago já
não há narcisos _ somente
os turvos reflexos

Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

Dor 3


x
dores do coração
dores da alma da memória
longes supernovas
há muitos milhões de anos

luz multidireccional
chega por acaso
sem que ninguém dê por nada
só os sensores mais sensíveis

a dor verdadeira
aqui e agora a pedra
no rim a perna partida

picada de vespa
furúnculo que explode
dói a _ tua _ dor


Domingo, 2 de Agosto de 2009

Outras métricas

Os meus leitores já têm visto aqui várias experiências, mais ou menos tolas, de estruturas alternativas para ‘sonetos’.

A experiência de hoje é mesmo, verdadeiramente…, como dizê-lo…, parva!, mas não consigo deixar de a fazer.

Trata-se de contar caracteres (incluindo espaços) em vez de sílabas.

um processador de texto
ajuda ou anula a poesia
contar letras é álgebra
gramática generativa do

alfabeto vivo mas morto
o número confirma e uma
coisa analizada inteira
ou amostrada só é pouco

o sigificado e forma de
poemas movem-se para lá
do papel numa só mancha

depois do aristóteles e
do emerson alguém me dá
um bom livro de poética ?

Terça-feira, 28 de Julho de 2009

Cidade em Agosto


a cidade está adormecida
apesar de ser quase meio-dia
o que se passa o que passou o que via
distraído ou só sozinho na partida

terá sido o vinho que abriu
o bouquet incluía madeira tomate e figos
secos _ umbigos
que o meu vizinho viu

foi-se toda a gente embora
foi tudo para a praia agora
foi mas enfim

gosto desta margem em agosto
e até aposto
que vou ter o rio todo o mês só para mim

Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Morning Glory

Nas minhas leituras de haiku tradicionais, por enquanto ainda só em tradução inglesa, tenho visto que há “palavras de estação” (kigo) que são base para muitos poemas. A mais usada foi, decerto, sakura (flor de cerejeira), mas também hototogisu (o cuco, que também já usei - ao ter cinco sílabas, torna o haiku ainda mais despojado e difícil) e… asagao.

Asagao tem uma tradução linda em inglês, morning glory, mas o que é em português? Ao procurar na Wikipedia, fiquei agradavelmente surpreendido – é a nossa muito comum Ipomoea, que até já tive no jardim!

Mas morning glory pode ter outro significado em inglês…

Como a flor se pode apresentar de imensas cores, fiz três haiku, em inglês – azul, branca e vermelha – que foram muito bem recebidos no twitter pelo que pensei ser talvez capaz de os juntar num dos meus sonetos-waka.

Espero que gostem.
x


x
blue morning glory
head bent in contemplation
of the coming dawn
should not wait for better days

flowers live by their own rules
free to ignore them
together they are alone _
careless fructification

white morning glory
tumescent beyond the fence
still awaits the bee

red morning glory
is fall coming or is it
that you are blushing

Terça-feira, 21 de Julho de 2009

A figueira


Lambert Kriedemann, Fig Tree
x
desde a manhã
a figueira estende os braços
para os meus olhos
torta no cimo do monte

não tem folhas nem tem frutos
só aquelas mãos
descarnadas e nodosas
e a voz a voz tão doce _

vem até aqui
não te esqueças da corda
vem até aqui

tenho uma rocha
entre as minhas raízes
para tu subires

Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

dedos...

Num breve intervalo nas férias do Bar, venho aqui só servir um soneto a uma cliente especial.
[Consumidores mais frugais, os haiku continuam a ser actualizados diariamente na colina do lado.]

x


Inwood Hill Park, NY

x
depois de vaguear todos estes anos
de olhos fechados língua entre os dentes
por prados iguais em planícies diferentes
guiado pelos ritmos circadianos

o vento na cara pecados humanos
quase nunca demasiado urgentes
algumas queimaduras indiferentes
causadas pela neve e por mitos urbanos

senti na cara a pressão de uma teia
o veneno da aranha a entrar na veia
o sono o pesadelo a dissociação

abriste-me os olhos para entrar ar
lavaste-me o sangue voltei a falar
roçaste os dedos pela minha mão

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Aviso aos estimados clientes

o bar vai pra férias
quem sabe se voltará
com as andorinhas

Dor 2

não quero fazer-te
doer com o meu amor
não quero ver-te
recuar de olhos fechados

ou estender as mãos abertas
convidando-me
a magoar-te decerto
ainda mais uma vez

estes meus poemas
rasgam-me a desenhar
mais do que te doem

por isso não temas
algum dia esta folha
ficará em branco

Dor 1



ácido picante
demasiado calor
gelados no inverno
bungee-jumping na austrália

sapatos muito pequenos
altos e bicudos
slasher movies às escuras
uma banda no coreto

qual é o prazer
que encontramos na dor?
cristo é inocente

ao menos a vespa
deposita os seus ovos
numa aranha viva

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Farol


x
na tempestade
ergue-se a espuma
há um farol

A masmorra


Janela Gradeada: a primeira fotografia do primeiro fotógrafo, William Henry Fox Talbot.
x
os dias voltaram a encurtar
o verão começou mas ainda não
estou nesta masmorra a água e pão
pela janela de grades a espreitar

a lua o sol às vezes nunca o mar
oiço-o e posso estender a mão
nas horas de forte rebentação
provo o sal dos salpicos pelo ar

nem se está mal aqui com as baratas
acompanhantes das horas ingratas
gostoso suplemento nutritivo

se ao menos soubesse a acusação
quanto tempo me resta de prisão
sonharia que ainda estava vivo

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

A onda


Hokusai: A Grande Onda de Kanagawa (1826-1833?)
x
às vezes a onda
quase tem vontade própria
de nos destruir _
par de pobres pescadores

num barquinho de papel
julgavam chegar
à montanha no horizonte
esmagada pelas águas

senta-te direita
levanta os olhos sem medo
é tudo só mar

nós não temos remos
mas se dermos bem as mãos
chegaremos lá

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Caderno Digital


M. C. Escher, 1948: Drawing Hands
x

não tenho conseguido escrever longos versos
como antigamente - o belo alexandrino -
olho o papel digital e desatino
os haiku foram perversos

já tentei usar esquemas diversos
página a5 ou 6 em corpo pequenino
formatado em papel fino
mortalha pra cigarros de outros universos

além do mais contar as sílabas chateia-me
e andar à procura de rimas incendeia-me
quero lá saber se isto faz sentido

vou voltar a escrever a lápis num caderno
correcções riscos traços grossos em tom terno
primeiro dou-te a ler depois publico sem ter lido

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Topologia


Ensō: Kanjuro Shibata XX (2000)
x
Tentei há tempos dar uma impressão do vazio num soneto sob a influência do cânone budista, preservado no sudeste asiático, mas de origem indiana. O espírito nipónico, ao abordar a mesma questão com a sua característica economia formal, é mais profundo, pungente e eficaz.
Ensō (円相) é a palavra japonesa que significa “círculo” e é a mais perfeita representação do vazio na estética zen.

esfera perfeita _
feita de nada por dentro
o centro por fora

Domingo, 5 de Julho de 2009

The little Love-god lying once asleep: Shakespeare

O Bardo foi um prolífico sonetista. Este que se segue é, tanto quanto se sabe, o seu último soneto (o 154º).


The little Love-god lying once asleep,
Laid by his side his heart-inflaming brand,
Whilst many nymphs that vowed chaste life to keep
Came tripping by; but in her maiden hand
The fairest votary took up that fire
Which many legions of true hearts had warmed;
And so the General of hot desire
Was, sleeping, by a virgin hand disarmed.
This brand she quenched in a cool well by,
Which from Love's fire took heat perpetual,
Growing a bath and healthful remedy,
For men diseased; but I, my mistress' thrall,
Came there for cure and this by that I prove,
Love's fire heats water, water cools not love.

Sábado, 4 de Julho de 2009

…algumascritautomática…

…cacofonia telefónica a telefonia
principia a nostalgia sinfonia simonia
afónica atónita coruja parva escava
sujas tocas de ratos blindados encarnados

entornados no sangue vêem-se esporos
entre os toros dos foros romanos
dor adstringente dos humanos transalpinos
meninos pequeninos finos bonitinhos

entre vinhos palhetes manchas nos bilhetes
a pedir falsetes sem resposta não gosta
não quer a posta mirandesa concerteza

porque é crua e nua só com o sal mineral
animal vegetal de portugal sensacional
sensacionista seca e doida como a lista…

Sonho da Pescadora de Pérolas, Hokusai

Muita gente ignora que Hokusai, que influenciou muito os pós-impressionistas europeus, produziu inúmeras belíssimas pinturas eróticas (muito melhores que o habitual shunga) para ajudar ao sustento. Gosto de imaginar que também foi por puro e simples prazer…

A que mostro hoje, Sonho da Mulher do Pescador (ou Sonho da Pescadora de Pérolas), tem uma história de criar problemas em galerias e publicações em que foi exposta. Abençoada Internet!

A combinação de atracção e nojo é irresistível mas não ofusca a leveza e precisão do traço, a suavidade da côr, a variedade das texturas, o dinamismo da composição – um grande Hokusai!
Por muito que tentasse, não consegui encontrar uma tradução do texto que se encontra em fundo. Alguma ajuda?



no fundo do mar
a dormir profundamente
tu mergulhadora
exalaste todo o ar

já não procuras as pérolas
quistos de cetim
adornos em outros corpos
camuflagens da nudez

estou no teu sonho
um morno tremor de lava
que quase é humano

mas sou só um polvo
atento longo e viscoso
à espera nas pedras

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Com um pedido de desculpas ao Luís Vaz…

...e uma dedicatória especial a uma (de) esquerda...

ah maminha gentil que te abriste
por entre as rendas do amor urgente
possa eu ver-te assim eternamente
e veres-me tu como nunca viste

naquele leito duro onde subiste
estava eu estava muita gente
eu eu mais eu e outro eu diferente
vendo-te rija mas sorrindo triste

só de pensar que ainda vou perder-te
desdobro-me e nenhum eu ficou
mão suave que possa merecer-te

mas não importa o tempo encurtou
fecha os olhos que vou de novo ter-te
mesmo assim eu que já de mim não sou

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Pares de gatos

casal japonês
português duas moscas
um par de rolas
os gatos andam sozinhos

pé ante pé entre os juncos
entre os automóveis
não revelam companhias
os gatos são reservados

às vezes à noite
só os miados revelam
algum interesse

um casal de gatos
europeus de pelo curto
nesse caso em casa

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Estação


J.M.W. Turner, Rain, Steam and Speed, 1844?
x
nas estações as pessoas encontram-se
e desencontram-se às vezes marcaram
dia hora e local propositadamente mal
ou enganaram-se a ler o caderninho

a letra miudinha os sinaizinhos que faziam
sentido quando se liam anteontem
mas hoje que diabo quer isto dizer
ou a mão foge ou então foi de propósito

há muitas rotas para as pessoas se encontrarem
um cuidado nas notas cursivo desenhado
o quadrado amarelo a terminar amo-te

eu procuro acatar os meus próprios conselhos
a maior parte das vezes não mas nisto
e nunca mais serei visto no outono por engano

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Chapéu de chuva


Kitagawa Utamaro, Umegawa e Chubei, fins do séc XVIII.
x
chove e está calor
guarda-chuva no caminho
a guardar a chuva
prevendo tempos mais fáceis

debaixo de um guarda-chuva
pobres somos dois
cheiro da terra molhada
zumbidos das jovens moscas

chega-te a mim
para nos molharmos juntos
sob o chapéu roto

vamos caminhando
a vereda nunca seca
até à lagoa

Veleiro


x
Sumi-e de William Preston
x
veleiro sem velas
cordame âncora ou bússola
não se lhe vêem a bordo
jovens marinheiros

um pauzito a flutuar
não é a nau catrineta
mas no porão um demónio
atrai-lhe as tempestades

um grito de medo
no meio do temporal
mistura-se à chuva

dentro do farol
está na ordem de serviço
escutar trovões

Domingo, 28 de Junho de 2009

Vulcanismo

«Vulcanismo: nome masculino
que designa um novíssimo culto
atraente para o esperto e o estulto
feito sobre a descrença no destino (...)»

adoro vulcano deus tenebrino
guardião das profundezas sem indulto
e é no seu culto que à noite exulto
acendo a vela coro e desatino

«(...) os ritos festivos especiais
celebram-se em feriados nacionais
fecha o governo as lojas e a banca.»

nesses dias viramo-nos para leste
e em silêncio veneramos este
vulcão de lava salgada fina e branca

Sábado, 27 de Junho de 2009

Renku

Há poucos dias uma simpática leitora fez uma tentativa de me responder em verso ‘à japonesa’ e terminou lamentando não saber fazer haiku. Claro que sabe – é só querer.

Com a devida vénia, se me permite, vou tentar continuar os seus dois primeiros versos, quase três, para um renku mínimo.

Renku (連句, - versos ligados), é uma forma popular japonesa de poesia colaborativa, que remonta pelo menos ao séc. X e foi conhecida até ao séc. XVII como haikai no renga (俳諧の連歌). Nas reuniões de renku os participantes iam produzindo alternadamente estrofes de 17 e 14 sílabas (ongi) agrupadas 5-7-5 // 7-7 // ...

Foi no séc. XVII que Matsuo Bashō elevou o renku à sua maior qualidade e, simultaneamente, criou a forma hoje conhecida como haiku – a partir da primeira estrofe dos renku.

Espero que a leitora goste e, quem sabe, queira continuar: é que os renku tradicionais chegavam a ter centenas de estrofes…

x

T.J. Walton, Weeping Willow, 200?, óleo sobre tela, 24” X 24”
x
ontem não passei
por aqui não bebi desta
fonte - escondida

entre chorões e agrião
só areia e pedras secas

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Cigarra


Desenho de Julia Lundman
x
pôr do sol a lua
estar só é uma bênção
posso andar nu pelas ruas
não comer a horas certas

nunca trabalhar
que isto não é trabalho
uns riscos soltos no ar
não dizem nada a ninguém

posso cantar alto
gritar só obscenidades
ou talvez ternuras

agradeço a quem
a relva só para mim
todas as cigarras

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Soneto da Fidelidade: Vinicius de Moraes



(Ao piano, Antônio Carlos Jobim)

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

O presente



Cézanne, Étude d’une Pomme.
x


carpe diem agarra o presente
hoje nem passado nem futuro
se o fruto está bem maduro
come-o já antes que fermente

não interessa nada a semente
nem a casca nem o tronco duro
as vestes do mercador impuro
a criança de olhar ausente

a polpa será satisfatória
carne vegetal em toda a glória
brilho na pele de orvalho ameno

aproveita trinca espreme e suga
sobre a testa apenas uma ruga
fecha os olhos pode ser veneno

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Shiatsu


x
à pressão de um dedo
abrem-se todas as portas
a chave da carne
não poderá ser cortante

não poderá ser metálica
instrumento rombo
apenas um dedo
num meridiano verde

pressão controlada
extraordinárias máquinas
linhas no horizonte

um polegar verde
e florescem as sakuras
frutinhos que cantam

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Piramidal chá branco

não vivo planeio não sonho penso
em mares em nuvens em corvos que
são todos metálicos finalmente
num mundo virtual de bits estou

exaltado estou cansado estou farto
deste filme mudo preciso de
legendas ou cor ponho-me a andar
no meu toyota híbrido para

respeitar ao ambiente aqui
não a marte nem à terra nem a
vénus eu vou tentar nunca deitar

cê ó dois na atmosfera ou pérolas
no teu chá branco que tomas aos
poucos mesmo sem pensamentos porcos

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A Flor do Sonho: Florbela Espanca

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim! ...
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh'alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...

Domingo, 21 de Junho de 2009

À espera

não espero nada
de ideias esperançosas
outros projectos de vida
não espero nada

de ir e sempre ficar
a deitar as outras cartas
não espero nada
de primavera ou outono

não espero nunca
nos cafés ou nos museus
lugares sem eco

os passeios vazios
quando nós por lá esperamos
gelam no verão

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Śūnyatā



Śūnyatā, substantivo sânscrito que significa “vazio” é, segundo o Budismo, a principal característica de objectos e fenómenos, decorrente da sua impermanência. Foto "Sunyata Glacier" de Roberta Holden.
x
fui nado e educado um bom cristão
mas hoje realmente sou budista
fui tendo sobre o mundo uma vista
de menos coração e mais razão

confesso saudades da fé no pão
no vinho numa vida que exista
inferno após a morte do artista
céu reservado só ao artesão

de facto nada tem significado
essência permanência em nenhum lado
de nada de ninguém de coisa alguma

mas isso mesmo é o que me dá paz
a imensa paz que o vazio traz
sem medo nem esperança ante a bruma