OBarRouco é um bar porque o álcool e a poesia sempre combinaram e é rouco porque é um crocitar meu, poeta amador impenitente. Depois de a religião morrer, depois de a filosofia emudecer, depois de o trabalho falhar, depois de o amor rir, está-se mesmo a ver: este blog é uma catarse descarada, em barroco às vezes gótico.
A excepção têm sido os haiku, publicados mais ou menos diariamente no twitter, que podem seguir aqui ao lado.
Não é que compor um haiku envolva menos mão-de-obra que compor um soneto – nada disso!
Mas, dada a minha idade avançada, é-me mais fácil memorizar e trabalhar três versos na cabeça que catorze. E assim posso fazê-lo em qualquer lado, sem computador nem papel.
Penso que não é tradicional, mas tenho feito séries de haiku sobre o mesmo tema. Já aqui mostrei uma sobre Ipomoea – as morning glories – e aqui vai outra sobre narcisos, recomposta em forma de soneto.
Não somos todos um pouco narcisos, mesmo em molhos de dois?
Nas minhas leituras de haiku tradicionais, por enquanto ainda só em tradução inglesa, tenho visto que há “palavras de estação” (kigo) que são base para muitos poemas. A mais usada foi, decerto, sakura (flor de cerejeira), mas também hototogisu (o cuco, que também já usei - ao ter cinco sílabas, torna o haiku ainda mais despojado e difícil) e… asagao.
Asagao tem uma tradução linda em inglês, morning glory, mas o que é em português? Ao procurar na Wikipedia, fiquei agradavelmente surpreendido – é a nossa muito comum Ipomoea, que até já tive no jardim!
Mas morning glory pode ter outro significado em inglês…
Como a flor se pode apresentar de imensas cores, fiz três haiku, em inglês – azul, branca e vermelha – que foram muito bem recebidos no twitter pelo que pensei ser talvez capaz de os juntar num dos meus sonetos-waka.
Espero que gostem. x
x blue morning glory head bent in contemplation of the coming dawn should not wait for better days
flowers live by their own rules free to ignore them together they are alone _ careless fructification
white morning glory tumescent beyond the fence still awaits the bee
red morning glory is fall coming or is it that you are blushing
Num breve intervalo nas férias do Bar, venho aqui só servir um soneto a uma cliente especial. [Consumidores mais frugais, os haiku continuam a ser actualizados diariamente na colina do lado.]
x depois de vaguear todos estes anos de olhos fechados língua entre os dentes por prados iguais em planícies diferentes guiado pelos ritmos circadianos
o vento na cara pecados humanos quase nunca demasiado urgentes algumas queimaduras indiferentes causadas pela neve e por mitos urbanos
senti na cara a pressão de uma teia o veneno da aranha a entrar na veia o sono o pesadelo a dissociação
abriste-me os olhos para entrar ar lavaste-me o sangue voltei a falar roçaste os dedos pela minha mão
M. C. Escher, 1948: Drawing Hands x não tenho conseguido escrever longos versos como antigamente - o belo alexandrino - olho o papel digital e desatino os haiku foram perversos
já tentei usar esquemas diversos página a5 ou 6 em corpo pequenino formatado em papel fino mortalha pra cigarros de outros universos
além do mais contar as sílabas chateia-me e andar à procura de rimas incendeia-me quero lá saber se isto faz sentido
vou voltar a escrever a lápis num caderno correcções riscos traços grossos em tom terno primeiro dou-te a ler depois publico sem ter lido
Tentei há tempos dar uma impressão do vazio num soneto sob a influência do cânone budista, preservado no sudeste asiático, mas de origem indiana. O espírito nipónico, ao abordar a mesma questão com a sua característica economia formal, é mais profundo, pungente e eficaz. Ensō (円相) é a palavra japonesa que significa “círculo” e é a mais perfeita representação do vazio na estética zen. esfera perfeita _ feita de nada por dentro o centro por fora
O Bardo foi um prolífico sonetista. Este que se segue é, tanto quanto se sabe, o seu último soneto (o 154º).
The little Love-god lying once asleep, Laid by his side his heart-inflaming brand, Whilst many nymphs that vowed chaste life to keep Came tripping by; but in her maiden hand The fairest votary took up that fire Which many legions of true hearts had warmed; And so the General of hot desire Was, sleeping, by a virgin hand disarmed. This brand she quenched in a cool well by, Which from Love's fire took heat perpetual, Growing a bath and healthful remedy, For men diseased; but I, my mistress' thrall, Came there for cure and this by that I prove, Love's fire heats water, water cools not love.
Muita gente ignora que Hokusai, que influenciou muito os pós-impressionistas europeus, produziu inúmeras belíssimas pinturas eróticas (muito melhores que o habitual shunga) para ajudar ao sustento. Gosto de imaginar que também foi por puro e simples prazer…
A que mostro hoje, Sonho da Mulher do Pescador(ou Sonho da Pescadora de Pérolas), tem uma história de criar problemas em galerias e publicações em que foi exposta. Abençoada Internet!
A combinação de atracção e nojo é irresistível mas não ofusca a leveza e precisão do traço, a suavidade da côr, a variedade das texturas, o dinamismo da composição – um grande Hokusai! Por muito que tentasse, não consegui encontrar uma tradução do texto que se encontra em fundo. Alguma ajuda?
no fundo do mar a dormir profundamente tu mergulhadora exalaste todo o ar
já não procuras as pérolas quistos de cetim adornos em outros corpos camuflagens da nudez
estou no teu sonho um morno tremor de lava que quase é humano
mas sou só um polvo atento longo e viscoso à espera nas pedras
...e uma dedicatória especial a uma (de) esquerda... ah maminha gentil que te abriste por entre as rendas do amor urgente possa eu ver-te assim eternamente e veres-me tu como nunca viste
naquele leito duro onde subiste estava eu estava muita gente eu eu mais eu e outro eu diferente vendo-te rija mas sorrindo triste
só de pensar que ainda vou perder-te desdobro-me e nenhum eu ficou mão suave que possa merecer-te
mas não importa o tempo encurtou fecha os olhos que vou de novo ter-te mesmo assim eu que já de mim não sou
Há poucos dias uma simpática leitora fez uma tentativa de me responder em verso ‘à japonesa’ e terminou lamentando não saber fazer haiku. Claro que sabe – é só querer.
Com a devida vénia, se me permite, vou tentar continuar os seus dois primeiros versos, quase três, para um renku mínimo.
Renku (連句, - versos ligados), é uma forma popular japonesa de poesia colaborativa, que remonta pelo menos ao séc. X e foi conhecida até ao séc. XVII como haikai no renga (俳諧の連歌). Nas reuniões de renku os participantes iam produzindo alternadamente estrofes de 17 e 14 sílabas (ongi) agrupadas 5-7-5 // 7-7 // ...
Foi no séc. XVII que Matsuo Bashō elevou o renku à sua maior qualidade e, simultaneamente, criou a forma hoje conhecida como haiku – a partir da primeira estrofe dos renku.
Espero que a leitora goste e, quem sabe, queira continuar: é que os renku tradicionais chegavam a ter centenas de estrofes…
x T.J. Walton, Weeping Willow, 200?, óleo sobre tela, 24” X 24” x ontem não passei por aqui não bebi desta fonte - escondida
x à pressão de um dedo abrem-se todas as portas a chave da carne não poderá ser cortante não poderá ser metálica instrumento rombo apenas um dedo num meridiano verde pressão controlada extraordinárias máquinas linhas no horizonte um polegar verde e florescem as sakuras frutinhos que cantam
A Flor do Sonho, alvíssima, divina, Miraculosamente abriu em mim, Como se uma magnólia de cetim Fosse florir num muro todo em ruína. Pende em meu seio a haste branda e fina E não posso entender como é que, enfim, Essa tão rara flor abriu assim! ... Milagre... fantasia... ou, talvez, sina... Ó flor que em mim nasceste sem abrolhos, Que tem que sejam tristes os meus olhos Se eles são tristes pelo amor de ti?!... Desde que em mim nasceste em noite calma, Voou ao longe a asa da minh'alma E nunca, nunca mais eu me entendi...
Śūnyatā, substantivo sânscrito que significa “vazio” é, segundo o Budismo, a principal característica de objectos e fenómenos, decorrente da sua impermanência. Foto "Sunyata Glacier" de Roberta Holden.
x
fui nado e educado um bom cristão mas hoje realmente sou budista fui tendo sobre o mundo uma vista de menos coração e mais razão
confesso saudades da fé no pão no vinho numa vida que exista inferno após a morte do artista céu reservado só ao artesão
de facto nada tem significado essência permanência em nenhum lado de nada de ninguém de coisa alguma
mas isso mesmo é o que me dá paz a imensa paz que o vazio traz sem medo nem esperança ante a bruma
"Deusa Minóica das Serpentes" de Knossos, Creta, c. 1600 AC, faiança, altura 34,3 cm (Museu Arqueológico de Herakleion)
x
Esta figura foi encontrada por Evans sem a cabeça nem o braço esquerdo. Anos mais tarde encontraram-se fragmentos que premitiram reconstituir a cabeça, mas a reconstituição do braço esquerdo é puramente especulativa.
x
um sonho estranho envolveu o mar envolveu-me no mar que naufraguei não vi a posídon não vi o rei dei à costa em mais antigo lugar
aí à luz difusa do luar mulheres de peitos nus daquela grei acorrentaram-me ao touro que sei e levaram-me à deusa a rastejar
ficámos sós no templo baixo e grosso eu prostrado ela erguendo triunfante na mão visível a cobra e o gato
com a outra mostrou-me que ainda sou moço fez-me esquecer a morte num instante ficar-lhe-ei eternamente grato
Natal
-
Que azáfama! Passei cinco dias a comprar coisas. Comprei roupa para a neve;
luvas, ceroulas, calças impremeáveis, uma camisola polar, uma malha, um
casaco ...
Peace on Earth
-
The first glimmer of it had been the sign
on the gatepost, *Maes-y-Pant*, past
the unnumbered mailbox. The car door
slammed shut behind me. Andrzej turned
o...
raul brandão / tudo o que me podes dizer
-
Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade – porque nunca mais se
repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem na
vibra...
Mais Eça
-
Segue um presentinho de Natal. Brasil e Portugal, nações-espelho, quase
idênticas -- filho e pai... Abraço a todos. E.
"Carlos desatou a rir, contou ao avô...
Mário Avelar, a ficção
-
Mário Avelar publicou este primeiro romance em 2008.
Mas não podia ser mais actual a sua leitura nos dias conturbados que correm.
O tempo de que ele se ocupa...
Expectativas
-
tudo começa
do mesmo jeito
diferente
o que se quebra
pesa mais
do que o sonho leva
como se o dia
não passasse
dessa noite
(do "Dois em Um)
Há 2 meses
Seguidores
Acerca de mim
Eduardo Ribeiro
Portugal
Nascido em 1959, Balança, desequilibrado e descrente. Sexo: infelizmente muito pouco. Politicamente libertário. Professor, cientista e preguiçoso. //
Born in 1959, Libra, unbalanced and unbeliever. Libertarian, scientist, lazy.